CAIRO
Uma viagem ao melhor da História O maior tesouro
arqueológico da História, testemunho de uma era de grandeza com 5 mil
anos de idade, está aqui, às margens do Rio Nilo. As pirâmides e a
Esfinge são apenas o mais conhecido dos cartões-postais. Mas há mais de
700 indícios do tempo dos faraós para tornar imperdível um roteiro por
esse país.
Com um olhar mais que malévolo, o sujeito vem em minha
direção. É um árabe, vestido em sua tradicional galabeia, a ampla
túnica que veste os povos do deserto. Não tenho idéia de qual é o seu
nome, mas vou chamá-lo de Abdul, para facilitar a narrativa. Pois lá vem
Abdul. Vai querer me vender algum cacareco. Um papiro de araque, um busto
de Ramsés (ele vai dizer que é de marfim, mas deve ser de poliestireno)
ou um escaravelho de pedra-sabão. Eu não vou querer comprar, mas ele vai
insistir, vai tentar fazer com que eu pegue a mercadoria, vai chorar e
espernear em três ou quatro idiomas. E não vai desistir até que eu fuja
- se eu puder - ou que eu morra.
Abdul continua se aproximando e a única coisa que me
ocorre para escapar do assédio insuportável é simular um desmaio. Há
dias que estou no Egito elocubrando idéias malucas como essa. Um desmaio,
um tiro, um punhal envenenado. Qualquer recurso que me garanta um mínimo
de paz para contemplar o legado dos faraós.
Mas agora já não dá mais. Abdul me alcançou. Estou
no meio do Vale dos Reis, na margem ocidental do Rio Nilo. Ao meu redor,
colossais paredes de areia abrigam os mausoléus de pelo menos 64 faraós
(deve haver muito mais: é só cavar), um dos mais fascinantes
mostruários da História em todo o mundo. Realizo, num raro instante de
abstração, que nunca cheguei tão longe em qualquer viagem. Não é
apenas um outro país num outro continente. É o registro do que chegamos
a ser - e as ruínas do que poderíamos ter sido. Mas Abdul já mixou o
insight. Agora ele está agarrado ao meu braço esquerdo. O mesmo papo de
sempre; "Where are you from? Italy? Germany? Hablas español?"
Abdul percebe que eu só quero me desvencilhar. Então
vira para um lado e para o outro, estende-me o olhar mais cúmplice que
já vi em longos anos de vida e saca um pequeno embrulho das barras de sua
galabeia.
"Original, my friend", sussurra Abdul, mais
melífluo do que nunca, enquanto mostra seu tesouro. É uma lasca de
parede, no mesmo tom de azul que acabo de ver no interior do recinto
funerário de Ramsés VI. Pior: parece mesmo original, contendo o excerto
de um hieróglifo em baixo relevo, exatamente como os que os súditos dos
faraós esculpiam em suas tumbas em honra ao soberano morto.
A simples possibilidade de que alguém esteja tentando
convencer-me a comprar um caco tetramilenar produz um sentimento
instantâneo de profanação. Se isso um dia ocorrer com você, prezado
leitor, saiba que apesar de haver 99,9% de chances de que a pretensa
relíquia seja falsa como uma nota de 3 reais, você vai ser tentado a
supor que, sim, aquilo é mesmo um pedaço de história ao seu alcance.
Você vai, portanto, espantar-se com a possibilidade de que o Egito e seus
tesouros incomparáveis estejam sendo dilapidados pelos próprios
egípcios. E o que é mais assustador: você vai descobrir que isso está
mesmo ocorrendo.
"Não podemos ter um guarda a cada metro
quadrado", justifica Omar Galal Fayed, guia turístico especializado
em conduzir turistas brasileiros, quando questionado sobre a ausência de
proteção ostensiva aos pés da Pirâmide de Quéops, uma das sete
maravilhas do mundo.
Na lógica meio orgulhosa, meio obscura de Omar - e de
grande parte dos egípcios contemporâneos - o Egito é um interminável
manancial de tesouros históricos e a tarefa de protegê-los seria um
esforço ainda mais colossal do que o dispendido na construção da Grande
Pirâmide, que envolveu o trabalho de 100 mil escravos durante vinte anos,
encaixando dois milhões de blocos de pedra (o mais leve deles com 2
toneladas). Isso quer dizer que não há guardas que afugentem os
saqueadores. O que significa, que, de fato, a lasca de Abdul possa ter
sido tirada da tumba de Ramsés. E que, como há milhares de Abduls
rondando os 700 templos da era faraônica, que o tempo caprichosamente
conservou, você deve ir correndo ao Egito, antes que ele acabe.
Antes que sumam os vestígios da impressionante
civilização que viveu nessas plagas, adorando deuses fantásticos,
produzindo arte, dominando tecnologias que até hoje se desconhece,
estudando os astros, criando hospitais e bibliotecas e registrando todos
os seus avanços na iconografia hierogláfica.
Não há descendentes dessa gente. O Egito dos faraós
viveu seu esplendor entre 3100 e 1000 anos antes de Cristo. Depois,
sucessivamente invadido por povos vizinhos, entrou numa longa agonia.
Descaracterizou-se quase completamente há quase 2400 anos, quando foi
invadido por Alexandre, o Grande. Depois, lentamente, helenizou-se,
romanizou-se, sumiu. Coube aos árabes, que chegaram ao delta do Nilo no
século 7 depois de Cristo, a herança daquele imenso patrimônio. São
eles, até hoje, os donos da terra (areia soa mais apropriado) que
escondeu - e provavelmente ainda esconde - o maior patrimônio histórico
da humanidade.
Culpá-los porque muitos turistas levam pedacinhos de
pirâmide na bagagem, entre as meias e as cuecas, é um raciocínio
simplista e injusto. As causas dessa triste realidade são as mesmas que
levam piauienses a vender fósseis de nossa pré-história ou amazonenses
a cortar árvores centenárias: pobreza e ignorância. Com 60 milhões de
bocas para alimentar e um deserto que ocupa 96% de seu território, o
Egito de hoje salva-se como pode. Não há elos entre os atuais ocupantes
do vale do Nilo e seus antecessores (não antepassados).
Só agora começa a despertar a consciência de que, a
longo prazo, tirando apenas fotos, os turistas podem render mais do que o
comércio de lascas do passado.
Mas como isso não é problema seu, corra! Compre uma
passagem, chame o seu agente de viagens e venha para cá! Em nenhuma outra
parte do mundo você terá tantas evidências de que o homem é um ser
viável. Nem em Nova York, onde o Empire State Building, por exemplo, é,
proporcionalmente, menos grandioso do que as 134 colunas do Templo de
Karnak, nem na China, onde a tal muralha é uma obra relativamente
simples, se comparada à Tutankamon muito anterior construção das
pirâmides. Nem em Londres, onde as jóias da rainha parecem bijuterias
frente ao legado de ouro, nem na Antártida, onde a adaptação dos
pesquisadores ao frio é menos impressionante do que a convivência entre
o homem e o deserto no tempo dos faraós.
Ainda hoje parece incrível que uma nação inteira - e
respeitável - sobreviva num lugar onde chove três dias por ano, o calor
é inclemente e quase toda a área disponível sirva apenas para assar
ovos de serpente ou produzir tempestades de areia. Como também soa
implausível que um local tão árido seja abençoado pelas águas fartas
e assíduas de um rio cuja nascente fica há cerca de 5 mil quilômetros
de suas fronteiras e que não tem sequer um afluente em seu próprio
território.
Mas assim é o Egito: um grande deserto amarelo no
nordeste da África, estranhamente vincado por uma cicatriz verde, que vem
a ser o vale do Rio Nilo. Quando você vier para cá, perceberá,
imediatamente, que o país é o rio e a vida que ele traz. À direita e à
esquerda dele, sempre ao alcance da vista, existe apenas a desolação da
areia estéril. Que é menos perceptível ao norte, no chamado Baixo Egito
(porque é para onde o Nilo desce), onde a região da foz no Mediterrâneo
se alarga consideravelmente. Mas basta sobrevoar o Cairo - a maior capital
da África, com 15 milhões de habitantes - para que você entenda como o
vale é estreito e a vida é limitada nessa parte do mundo.
Visto de baixo, porém, o panorama da metrópole é
muito diferente. Com centenas de mesquitas perfurando o horizonte, o
skyline da cidade não pode ser mais oriental. Acima do som das buzinas,
que soam dia e noite (não há motorista mais barulhento que o do Cairo),
apenas o estridente lamento dos sacerdotes, lembrando, cinco vezes ao dia,
de que é hora de voltar-se para Meca e bendizer Alá. O aviso vale apenas
para os homens, já que nesse modelo de sociedade muçulmana, a mulher
não tem deveres, senão o de procriar, nem direitos, senão o de
obedecer.
"Posso ter quatro esposas, mas só tenho uma
porque não sou capaz de agüentar quatro sogras", brinca,
sorridente, Moemen El Gabry, outro cicerone de turistas brasileiros.
Moemen, como a grande maioria dos egípcios
contemporâneos, é dono de um humor afiado. Zomba de tudo, menos do
Corão, mas tem uma lúcida consciência de que respeitar Alá não
significa odiar os estrangeiros, nem fechar o país para sua
"nefasta" influência.
Os egípcios, em sua grande maioria, são muçulmanos
sunitas, mais moderados do que seus irmãos xiitas, que fecharam as portas
do mundo para países como o Irã, a Líbia e o Afeganistão.
Sorte dos turistas que esse traço de moderação
predomine, ainda que os movimentos de radicalização islâmica venham
crescendo nos bolsões de miséria do país - ameaçando romper de vez os
vínculos com o passado faraônico.
Na verdade, nem todo mundo acha graça do buliço
tipicamente mouro de Khan el Khalili, o grande bazar de rua do Cairo, onde
tudo está à venda, de especiarias a camelos (mulheres, pelo menos, já
não se comercializa à luz do dia), inclusive artigos ocidentais como
discos, roupas íntimas e artigos eletroeletrônicos. Para os sombrios
xiitas, que escondem suas esposas sob grossos panos negros e consideram os
turistas invasores hereges, os templos erguidos há milênios para
reverenciar Hórus, Osíris ou Rá são obras pagãs que merecem ser
destruídas e, por causa deles, a "devassidão" ocidental está
conspurcando a alma egípcia.
Qualquer observador mais atento perceberá a presença
dos xiitas em alguns setores do Cairo e em outras cidades menores do sul,
como Édifo, onde eles são maioria. Mas nas rodas de narguilé, onde se
fuma a chincha (uma mistura de tabaco com melaço), que ocupam as
calçadas da metrópole ao sol poente, predomina a moderação e começam
a ser respeitados os argumentos do governo pela preservação do
patrimônio histórico, única porta possível para a modernização do
país.
E que patrimônio! Só nos arredores do Cairo há mais
vestígios da história humana do que em qualquer museu do planeta. Se bem
que parte das riquezas locais tenha sido transportada para museus das
grandes capitais ocidentais (o que se torna eticamente mais justificável
quando se vê que os tesouros locais podem ser vendidos, aos cacos, para
quem fizer a melhor oferta), ainda assim o que resta é inigualável. O
British Museum pode se orgulhar de exibir a barba da Esfinge (que está
lá, de fato) mas a presença enigmática da guardiã de Gizé continua
fincada na margem ocidental do Nilo com os olhos fixos na direção do sol
nascente.
Como um animal de guarda, a figura com corpo de leão,
rosto de gente e adornos de faraó - esculpida num único e gigantesco
bloco de arenito - fica bem na frente das pirâmides de Quéops, Quéfren
e Miquerinos. O que, nas extraordinárias dimensões do mais famoso
cartão-postal da Antiguidade, significa várias centenas de metros de
distância, que milhares de turistas atravessam todos os dias,
desajeitadamente instalados sobre o que supõem ser camelos de aluguel (na
verdade são dromedários, com uma corcova só).
O meu (claro que fui!) chamava-se Ronaldinho. Pelo
menos foi esse o nome que o esperto condutor lhe deu assim que descobriu
minha nacionalidade - fato que lhe rendeu alguns trocados a mais (claro
que sempre menos do que ele gostaria de receber).
Pois foi do alto do cupim de um estranho animal com
nome de craque da Seleção Brasileira que vi, num quadro único, a cena
que, 200 anos antes, extasiou o imperador Napoleão Bonaparte:
" Senhores, temei! - bradou o monarca - Do alto
dessa colina, 4 mil anos vos contemplam."
Impossível discordar da solenidade de Napoleão. Por
mais que você tenha visto e revisto o complexo de Gizé em revistas,
filmes, documentários e prospectos turísticos, não há como ter a menor
idéia da sensação que ele provoca sem pisar nas areias de seu entorno,
tocar as pedras imemoriais e deixar-se hipnotizar pelo feitiço do tempo.
Construídas mais de 2500 anos a.C., as pirâmides de
Quéops, Quéfren e Miquerinos são apenas as maiores de 94 outras
existentes no Egito. Seu tamanho é proporcional à grandeza que se
atribuiram os faraós que as conceberam. E o formato - hoje tão cult nos
ambientes exotéricos - é resultado de intrincados estudos astronômicos
feitos à época, com o objetivo de conservar por muito tempo os corpos
dos faraós sepultados, na expectativa de que algum dia eles voltassem a
se juntar com o espírito desencarnado.
As técnicas e crenças daquele povo misterioso são
tantas e tão espantosas que os viajantes de primeira viagem são
freqüentemente tentados a se tornar egiptólogos - e muitos deles
realmente mergulham no tema, retornando ao país todos os anos.
Se você quer escapar desse fascínio enlouquecedor,
deixe que o espanto seja seu limite e entregue-se aos Abduls que estarão
enxameando ao seu lado - eles sim são a realidade inevitável de que a
vida continua, pequena e comezinha, cinco milênios mais tarde.
Esse é o barato do Cairo - e de todo o Egito. Você
pode, numa só viagem, experimentar duas civilizações diferentes e ambas
tão distantes da nossa como as duas extremidades do Saara. Pela manhã,
por exemplo, você decide visitar a Cidadela de Saladino, para se encantar
com a gigantesca Mesquita de Alabastro (com minaretes de 84 metros de
altura) e, nesse caso, viverá a experiência exótica de estar numa
cidade medieval em pleno século 20. À tarde, porém, se conseguir varar
o trânsito infernal do Cairo, poderá recuar mais três milênios no
tempo, visitando a pirâmide escalonada de Saqqara (na verdade a mais
antiga delas, construída pelo faraó Djoser em 2630 a.C.) e, poucos
quilômetros adiante, ver o que restou de Mênfis, a primeira capital do
império egípcio, erguida em 3100 a.C. no exato ponto onde o longínquo
governante Menes proclamou a unificação do Alto e do Baixo Egito, dando
início à era dos faraós.
Pulinhos como esse, de quinhentos anos, são tão
comuns quanto tamareiras nas margens do Nilo (a conta fica mais
impressionante se você lembrar que, 500 anos atrás, Cabral ainda era
pouco mais que um grumete que nem sonhava descobrir o Brasil).
Numa viagem ao Egito, você exerce, quase sem perceber,
o poder de trafegar no tempo com que tanta gente ainda sonha. Por isso
vale a pena ter sempre um calendário histórico à mão, para entender
que a escultura que você achou tão caidaça pode ser um ou dois
milênios mais antiga do que a múmia que você curtiu.
Obedecendo essa regrinha você vai perceber que viajar
pela História é muito diferente do que viajar pela Geografia. Quando se
navega no tempo, nem sempre o que é mais distante é melhor ou mais
valioso. Mênfis, por exemplo, guarda muito pouco da grandeza de cinco
milênios atrás, visto que se deteriorou quase completamente. Já Tebas,
uma capital muito posterior, é o mais esplêndido mostruário de
construções antigas da Terra, na "juventude" de seus 3400
anos.
"Como? - você perguntará - mas e as
pirâmides?"
A resposta é quase herética. Mas o fato é que, se
comparadas, em valor histórico, aos templos de Karnak ou de Luxor, as
pirâmides são apenas... digamos assim... fotogênicas. Na verdade, os
vestígios do apogeu do povo egípcio estão 500 quilômetros ao sul do
delírio megalomaníaco de Quéops.
Tebas (hoje Luxor) foi a capital política e espiritual
do Egito antigo por 500 gloriosos anos a partir da chamada 18ª dinastia
(de um total de 32 em que se divide a história dessa civilização). Ali
reinaram Tuthmosis I (o faraó que substituiu as pirâmides pelas tumbas
encravadas no Vale dos Reis), Hatshepsut (a única mulher que governou o
Egito, mas que o fez como se fosse homem) e Ramsés II (o maior de todos
os faraós - veja quadro na pág. 51), entre outros. Ali o país atingiu
dimensões épicas e o seu mais alto grau de evolução.
Eis porque os arqueólogos mais respeitados vão muito
além do Cairo. É em Luxor - e em seus arredores - que a probabilidade de
encontrar outros tesouros do passado é maior. Alguns dizem que, nessa
parte do Egito, basta ter uma pá para encontrar uma preciosidade. Pouco
mais de setenta anos atrás, por exemplo, o arqueólogo inglês Howard
Carter encontrou, nessa área, o sarcófago de Tutankamon, tido como o
mais expressivo e conservado dos tesouros arqueológicos egípcios.
Tutankamon nem chegou a governar (foi assassinado aos 18 anos por seu
tutor), mas em sua câmara mortuária foram encontradas nada menos que
1700 peças de valor inestimável, entre elas o esquife - com 110 quilos
de ouro puro - e a fabulosa máscara mortuária, feita de ouro e
lápis-lázuli. Essas peças estão expostas hoje no pouco cuidado (mas
imperdível!) Museu Egípcio do Cairo e contam muito sobre as tecnologias
que se dominava naquele tempo. Têm valor inestimável, embora revelem
apenas uma pequena fração da grandeza dos que ergueram o fabuloso Templo
de Karnak, um dos maiores exemplos de fé de que se tem conhecimento.
Karnak (onde foi filmado parte do primeiro filme de
Indiana Jones) é, em suma, um templo em honra ao deus Amon. Sua imensa
área equivale à das treze maiores catedrais européias somadas. Quase
uma cidade de louvação, o templo foi construído durante treze séculos
e é uma interminável vitrine de obras impensáveis, onde se destacam as
134 colunas de 23 metros de altura, sobre as quais um dia repousou,
provavelmente, o maior teto do mundo. Ali está, também, o pilar de 43
metros (quatorze andares!) da entrada monumental e o inacreditável
obelisco de Hatshepsut, uma única peça com 340 toneladas de granito rosa
que - sabe Deus como - foi trazido de uma pedreira em Assuã (a 120
quilômetros de distância) e, o que é mais inexplicável, foi colocado
de pé.
Karnak é um programa de 2 horas para turistas
desligados e de vida inteira para egiptólogos apaixonados. Mas há quem
considere o templo de Luxor - poucos quilômetros distante - mais
homogêneo, visto que foi integralmente construído por Amenófis III e
Ramsés II, em duas dinastias consecutivas.
Os engraçadinhos costumam chamar o Templo de Luxor de
"banguela", porque um de seus monumentais obeliscos de entrada
foi inexplicavelmente presenteado aos franceses (veja quadro na pág. 49),
comprometendo a simetria do conjunto. Ali realizou-se a famosa montagem de
Aída, de Verdi, em 1987, protagonizada por Plácido Domingo.
Luxor é, quase sempre, o início da viagem mágica
pelo Nilo, empreendida diariamente por diversos navios, nos mais
concorridos cruzeiros fluviais de que se tem notícia. Quem embarcar num
desses verá primeiro, na margem ocidental do grande rio, o belo templo
mortuário da rainha Hatshepsut, os Colossos de Amenófis III - duas
estátuas de quase 20 metros de altura erguidas para guardar os restos
mortais do mencionado faraó, mais tarde rebatizadas pelos gregos como
Colossos de Menon - e o inacreditável Vale dos Reis, onde um certo Abdul
tentou me vender um caco da História.
Durante a navegação, já sob o efeito anestésico das
emoções anteriores, os viajantes conhecerão também o Templo de Horus,
em Edfu e o Templo de Komombo, construído em homenagem a Haruris. Verão
também o tempo parado há séculos nos vilarejos árabes, que parecem ter
saído de algum antigo conto das Mil e Uma Noites.
O final da jornada é Assuã, a mais meridional das
grandes cidades egípcias, habitada pelos núbios,os negros descendentes
do povo tantas vezes escravizado pelos faraós para exaltar sua glória.
Felucas (veleiros primitivos, mas eficientes) navegam nessa parte do Nilo
levando os viajantes para uma última jornada pela História, que inclui o
delirante mausoléu de Aga Khan, um líder islâmico paquistanês que se
destacou no jet-set dos anos 60 e escolheu essas paragens para seu
descanso definitivo.
Mais para o sul não se pode chegar. A monumental
represa de Assuã - um muro de 115 metros de altura por 3600 de largura,
erguido entre 1960 e 1971 - é um obstáculo incontornável. Ali
represado, o Nilo forma um lago imenso que inunda 350 quilômetros do
território egípcio e 150 quilômetros do vizinho Sudão.
A Represa de Assuã é considerada a última obra
faraônica do Egito e foi construída por um governante mais populista e
militarizado que seus distantes antecessores (não antepassados), chamado
Gamal Abdul Nasser.
Além de gerar energia para o país, suas águas
aumentaram em 2 milhões de quilômetros quadrados a área cultivável do
país. O que, se de um lado, diminuiu a pobreza do Egito, de outro,
soterrou uma incalculável quantidade de tesouros arqueológicos. Num
esforço internacional, 43 milhões de dólares foram investidos, à
época, para salvar os magníficos templos erguidos por Ramsés II em Abu
Simbel, que foram transportados, pedaço por pedaço, para um platô acima
da área inundada.
A grande ruína resgatada tornou-se um símbolo da
resistência à ação deletéria do tempo e do homem. Encravada numa
rocha no deserto, ela vê de longe a represa que hoje é parte vital do
processo de remissão do Egito. Os atuais governantes pretendem que dela
flua um canal paralelo ao Nilo, cujas águas poderiam triplicar o espaço
aproveitável no país. Para uma nação cuja principal fonte de renda é
um outro canal - o de Suez, aberto no século passado - a nova empreitada
pode significar o início do fim da miséria. Um fato novo que talvez
tenha o condão de afastar Abdul e seus conterrâneos do tráfico de
relíquias, para que o esplendor do Egito imemorial sobreviva à pobreza
de seus sucessores. E para que você possa fazer essa viagem inesquecível
sem perder o melhor da História.
Boas e más mercadorias que você vai encontrar à
venda por toda parte na grande tenda árabe que é esse país. Previna-se:
nenhum artigo tem preço de tabela ou etiqueta de preço, negociar é obrigatório. Se você aceitar a primeira
pedida, além de ter sido roubado, ofenderá o vendedor, ofereça um valor
absurdamente baixo, porque o que está sendo pedido é, também, absurdamente alto.
Não ligue para a choradeira. Chore também. Não pegue nenhum produto na mão, porque será impossível devolvê-lo.
Saiba que você jamais fará um bom negócio se não tiver tempo para perder.
Parta do princípio de que tudo que se vende na rua
ou em lojinhas turísticas é rigorosamente falso. Não adianta fugir que eles vão pegá-lo de qualquer
jeito. Se sentir pena do vendedor, você estará roubado.
O Egito é um grande deserto. Isso significa que o
calor pode ser infernal - e é, durante o dia - na maior parte do ano. A
ausência de sombra produz riscos de insolação para quem for visitar
ruínas nas horas mais quentes do dia. À noite, esfria. No inverno, entre
dezembro e março, os dias são agradáveis e as noites se tornam
gélidas. Chuva? No máximo três dias por ano.
Leve roupas leves, por causa do calor. Evite as camisetas
regata, caso queira evitar graves queimaduras na pele. Não esqueça de
levar um chapéu de abas largas, um bom tênis (caminha-se muito nos templos)
e meias novas. Nas mesquitas, você vai ter de tirar os sapatos e deve ir vestido com certo decoro.
Até 25 de setembro, o Egito está 6 horas adiante do
horário de Brasília. No resto do ano, a diferença entre os dois países
é de 5 horas. Durante o nosso horário de verão, a diferença diminui
ainda mais: cai para 4 horas. Mas o que são algumas horas para quem está
prestes a fazer uma viagem com destino a milênios atrás?
Os escritórios de turismo no Egito não são muito
equipados, mas você pode, pelo menos, obter algumas referências oficiais
de preços de táxis, atrações e hotéis. No Cairo, vá à Sharia Adly,
5, ou ligue para 391-3454, que é o maior dos escritórios. Pela Internet,
há boas informações no seguinte endereço: http. www.sis.gov.eg
Os egípcios esperam gorjetas como qualquer outro povo
do mundo. Os valores também são os internacionais. A diferença é que,
nesse país, muita gente pede gorjeta nas situações mais inesperadas. Se
você, por exemplo, tirar uma foto e houver um egípcio no cenário, é
provável que ele venha lhe pedir uma recompensa. O mesmo acontece caso
você peça uma informação na rua.
Compre um escaravelho: esse é o símbolo de sorte dos faraós
e você pode encontrá-lo em diversos tamanhos e materiais. Uma sugestão
legal é trazer uma camiseta com seu nome bordado em hieróglifos. Por 10
dólares você encontra quem faça, desde que saiba negociar. Para quem
gosta de cozinhar, uma boa pedida é ir aos mercados para comprar
especiarias e, também, tâmaras - as melhores do mundo.
O mais provável é que você esteja atrelado a uma
excursão - e opte por aquelas que reservarem pelo menos uma semana no
Egito. Com menos que isso, você não terá tempo de ir a Luxor e a Assuã
- e perderá o melhor da viagem. Para quem gosta de história,
recomenda-se viajar sem data para voltar.
Cuidado, nunca tome água da torneira e tenha cuidado também com o gelo.
Para evitar chateações, tente estar sempre próximo
ao grupo e aos guias. Afastar-se demais significa ser abordado por
vendedores e pedintes nem sempre agradáveis. Outra recomendação: não
subestime a força do sol do deserto.
O melhor é você sempre estar num ônibus turístico com ar
refrigerado. Não deixe também de dar uma voltinha de camelo (ou dromedário) em algum
lugar do Egito (é fácil encontrá-los próximo às principais atrações. No Nilo, não dispense
um passeio numa felluca, que é como se chamam os
tradicionais veleiros do povo egípcio.